14/12 2009
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PELO PÃO SE VIVE PELO PÃO SE MORRE Jorge Pinheiro é, sempre foi, um pintor de causas, até mesmo quando pinta ou projecta as suas rigorosas peças aparentemente "abstractas". Na multiplicidade de significados, o pão tem uma presença recorrente na sua obra, sendo o quadro "O Guarda, o Pão e o Camponês" e os respectivos desenhos preparatórios, o mais significativo conjunto de trabalhos ligados ao tema. O quadro, para além da sua proposta plástica e da leitura que nele fazemos de um confronto que nos é familiar, simboliza todos os confrontos entre todos os poderes que, pelo pão, enquanto necessidade primária do Homem, vão perpetuando os conflitos sociais. O Guarda que representa o poder de quem manda, de quem domina; o Camponês que representa quem trabalha a terra, semeia e colhe o trigo, o mói, o amassa e o coze até ser pão. E o Pão lá está, entre quem manda e quem o produz; símbolos fortes de uma luta antiga e permanente entre estes dois poderes. Os desenhos preparatórios mostram-nos bem como nasceu este quadro e como uma ideia se vai transformando, pouco a pouco, no objecto que a materializará. Neles, para além do estudo da composição, da luz, da perspectiva, da cor, da relação das figuras entre si e entre cada uma e o pão que ocupa o centro do quadro e das atenções, encontramos também, na maior parte das vezes, desenhos que se autonomizaram e que, para além do estudo de um pormenor, se afirmam como desenhos belíssimos, saídos das mãos de um pintor impar. Rigorosos na procura das linhas que estruturam o quadro, estes desenhos, em fases sucessivas, vão definindo a importância da luz e da cor como bases de todo o trabalho exigido na feitura do quadro. O resultado final é um quadro poderoso, que retratando simbolicamente o poder, o denuncia com o objectivo utópico de chamar a atenção para as lutas fratricidas, que ele gera. Ter esta exposição no Armazém das Artes é um privilégio que só uma longa amizade pode proporcionar.
José Aurélio Alcobaça 2009 |